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sexta-feira, 21 de maio de 2010

Introdução à Teologia Evangélica


Não há dúvida a respeito da grandiosa influência da teologia de Karl Barth. Aplaudido e criticado, Barth traçou uma carreira brilhante como pastor, pensador e, sobretudo, como professor universitário. A obra Introdução à Teologia Evangélica é o resultado da última preleção do teólogo suíço como professor na Basiléia. Ao mesmo tempo em que a obra resume e esclarece vários pontos da doutrina barthiana, aconselha os neófitos a respeito dos desafios, dificuldades e vantagens da vocação.


Para Barth, a Teologia é a disciplina, comumente caracterizada como científica, que tem por objeto o conhecimento a respeito de Deus. Porém, o termo "Deus" está longe de ser inequívoco. De fato, ele afirma: "Não existe ser humano que, de maneira consciente, inconsciente ou subconsciente, não tenha seu Deus ou deuses como objeto de seu desejo e confiança mais elevados, como base de sua vinculação e compromisso mais profundos". Sendo assim, muitas das ideologias que se autoproclamam atéias, seriam, na verdade, diferentes formas de teologia. A teologia que Barth procura introduzir é a teologia evangélica, entendida como aquela que está ligada diretamente à revelação testificada nas Escrituras Sagradas e, em especial, nas páginas do Novo Testamento e também à sua redescoberta pelos Reformadores no século XVI.

Segundo Barth, a característica principal da teologia evagélica é a modéstia. A teologia só pode tratar de Deus na medida em que o próprio Deus se revela e se volta para a existência humana. Se alguma teologia pode ser feita, deriva suas condições de possibilidade do fato de que o próprio Deus toma a iniciativa de se manifestar. A razão e o engenho humanos não podem por suas próprias forças "aproximar-se" do objeto da ciência teológica.

Além disso, a teologia evangélica é livre, porque raciocina com base em três premissas básicas: na existência do homem confrontada com a revelação; na fé desses seres humanos, que foram dotados com a vontade e a capacidade de reconhecerem a revelação como favorável; e na razão, que permite a cognição teológica. Todas essas premissas se submetem ao fato que Deus é a medida do próprio conhecimento teológico e não o homem. Sendo assim, o assunto da teologia não está preso aos parâmetros humanos, mas age livremente.

Também, a teologia é uma ciência crítica, pois enfrenta continuamente à crise de estar exposta ao seu objeto e por ter de se reformular continuamente, em razão da experiência contínua e dinâmica da auto-revelação.

E, por último, a teologia evangélica é uma ciência alegre, já que reconhece que Deus age continuamente em favor do homem e deseja relacionar-se amorosamente com ele.

Barth reconhece a importância das Escrituras Sagradas como testemunha da Palavra de Deus, que no vocabulário de Barth equivale à auto-revelação de Deus por meio de Jesus Cristo. Afirma que a Teologia está abaixo das Escrituras e não pode ignorar sua autoridade vinculante como fonte preferencial dos estudos. Porém, não deixa de reconhecer o papel central da comunidade (igreja) e especialmente do Espírito Santo na elaboração teórica e na compreensão existencial pessoal da Boa Nova.

O papel do teólogo concentra em si uma grande responsabilidade. Não é possível ao teólogo permanecer neutro ou imparcial ao seu assunto. Pelo contrário, o conhecimento de Deus gera um abalo que motiva o comprometimento.

Finalmente, o conselho de Barth a todos aqueles que foram chamados ao labor teológico é que cultivem continuamente a oração, o serviço o estudo e o amor.

domingo, 7 de março de 2010

Teantropologia

"A teologia evangélica não ignora que o Deus do evangelho se acha voltado para a existência humana, que ele realmente desperta e chama o ser humano à fé e que com isso reivindica e ativa a totalidade do potencial intelectual humano (e não só o seu potencial intelectual). Mas esse fato apenas suscita o interesse da teologia na medida em que ela se interessa, com prioridade absoluta, por Deus mesmo. Ela raciocina e argumenta sob a premissa dominante da revelação da existência e soberania de Deus. Caso quisesse proceder de forma contrária, tentando expor Deus ao critério do ser humano, em vez de expor o ser humano ao critério de Deus, ela seria vítima do cativeiro babilônico de antropologias, antologias e noologias, i. é, de qualquer interpretação antecipada da existência, da fé e do potencial intelectual do ser humano. A teologia evangélica não é forçada nem autorizada a enveredar por tal caminho. Ela sabe esperar, correndo o risco da fé, para verificar como a existência, a fé e a capacidade intelectual do ser humano, como seu ser e sua autocompreensão, em confronto com o Deus do evangelho, superior à existência humana, venham a revelar-se."

Barth, Karl. Introdução à Teologia Evangélica. Tradução de Lindolfo Weingärtner. 5ª edição revisada, São Leopoldo: Sinodal, 1996, p. 12

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A Pergunta sobre Deus


Como fazer a pergunta sobre Deus em nosso tempo? "O discurso sobre o Deus vivo, criador do mundo, está ameaçado a converter-se hoje, até na boca dos cristãos, em um vocabulário vazio. Pelo fato de que a compreensão acerca da realidade do mundo no qual existimos, determinado como está pela ciência e pela técnica, faz o vocabulário Deus parecer supérfluo, senão até tolhedor. Uma determinada forma de viver e pensar sem Deus define atualmente o comportamento cotidiano de cada pessoa, incluindo, também, o cristão. Esse ateísmo vivido é hoje o ponto de partida evidente de toda a reflexão pensante. Já a mera pergunta acerca de se Deus existe e quem é Deus, não precisa hoje de uma justificação particular, quando se apresenta com a necessidade de ser levada a sério por todos, ao menos enquanto pergunta" (p. 5-6)


É assim que Wolfhart Pannenberg apresenta a problemática tratada no livro A pergunta sobre Deus, derivado de uma conferência proferida no Instituto de Teologia e Göttingen em Julho de 1964. De lá para cá, algumas coisas mudaram - há sinais de um reavivamento da teologia natural, as previsões de secularização irreversível com a final extinção da religião nos países ocidentais, feita pelos sociólogos, não se cumpriram, o renascimento de uma filosofia cristã, especialmente nas universidades americanas, está em marcha -, mas pode-se dizer que, em linhas gerais, o panorama desenhado pelo teólogo alemão ainda vale para o princípio do século XXI.


Desde meados do século XIX, afirma Pannenberg, a pergunta sobre Deus foi confinada a um contexto muito limitado. O desafio de Fichte à ideia de um Deus pessoal e, mais tarde, a tese de Feuerbach sobre uma antropologia religiosa tiveram grande repercussão sobre o entendimento filosófico acerca de Deus. A idéia de Deus passou a ser utilizada como uma forma de compreender melhor o homem, valendo a hipótese de Feuerbach de que o homem criou Deus à sua imagem, ou melhor, à imagem da perfeição das virtudes humanas e de que, portanto, a religião é uma antropologia alienada em que o discurso sobre o homem é projetado para um outro ser. Foi, com isso, deixada de lado a questão a respeito da efetividade de Deus ou de seu governo sobre o mundo.


Contudo, a questão continua a ser colocada. Karl Barth entendeu que o próprio ser humano consiste nessa interrogabilidade e que, de alguma forma, isso demonstra a referibilidade do homem à Deus, uma vez que não existe pergunta sem a prefiguração de uma resposta. Essa idéia de Barth, inspirada já pelo pensar de Kierkegaard, especialmente as reflexões feitas em O desespero humano, fez eco em toda a teologia posterior. Bultmann concorda com Barth "que a pergunta que o homem é, só pode ser corretamente compreendida a partir de Deus, o qual é a resposta ao interrogar do homem sobre sua autenticidade" (p. 20), mas discorda de que qualquer tipo de resposta possa ser derivada da interrogabilidade, senão a própria pergunta. Portanto, a interrogabilidade não levaria a qualquer conhecimento positivo sobre Deus. A própria razão natural, argumentou Bultmann, foi capaz de identificar a interrogabilidade, provalmente se referindo à filosofia existencialista.


Entretanto, a pergunta sobre Deus, que é também a pergunta sobre o homem (isso sem nenhuma recaída na "antropologia alienada", muito pelo contrário, com base em uma antropologia teocêntrica), continua a se colocar e devemos enfrentá-la. Não é possível estar-lhe indiferente, apesar do ocultamento promovido pela técnica. Pannenberg afirma que a resposta à pergunta remete ao futuro, mas já está presente: "A resposta definitiva à pergunta existencial do homem é, portanto, o próprio Deus no futuro de sua soberania, a qual consistirá na definitiva revelação de sua divindade, já que esta coloca a história do mundo à luz do fim e, dessa forma, decide e desvela o significado, a essência, de cada um de seus elementos particulares e de cada uma de suas figuras e acontecimentos, manifestando assim o Deus vindouro como Senhor de todas as coisas. A partir do momento em que Jesus aparece, este futuro de Deus já começa a determinar o presente. A partir da aparição e destino de Jesus, torna-se possível viver cada situação atual em sua constelação concreta, segundo a forma como dita situação aparece à luz do futuro de Deus e segundo, portanto, a forma de sua verdade definitiva" (p. 57-58).


Para conhecer melhor essa pergunta e sua posição no pensamento teológico contemporâneo, recomenda-se a leitura do pequeno, mas rico livro desse que é considerado por muitos o maior teólogo acadêmico da atualidade.


Todas as citações foram extraídas de: Pannenberg, Wolfhart. A pergunta sobre Deus. Tradução de Daniel Costa, São Paulo: Novo Século, 2002.

domingo, 22 de novembro de 2009

Chamado ao discipulado


Karl Barth afirma, em seu livro Chamado ao discipulado, que a essência do discipulado é o "siga-me" de Jesus. A palavra grega que traduz o sentido do discipulado é akolouthein, que significa "ir após ou atrás de alguém". Esse verbo grego ganha especial importância no Novo Testamento quando é utilizado no chamamento feito aos discípulos para acompanhar o Mestre e para compartilhar sua vida e seu ministério.


Barth enfatiza que o chamado do discipulado é o chamado da graça. Tanto é assim que pouco se fala a respeito do caráter ou das qualificações daqueles que foram chamados. Pelo contrário, os chamados geralmente são aqueles que possuem pouca formação ou que são considerados terríveis pecadores. Nesse sentido, é exemplar a vocação de Levi. Chamado quando estava na coletoria, Levi , um publicano, não é de forma alguma alguém que possa ser considerado merecedor do chamado. Pelo contrário, o seu chamado é muito simples, muito singelo ou, numa expressão bastante adequada para o caso, gratuito. Por outro lado, aqueles que sem serem chamados quiseram seguir ao Mestre provavelmente baseados em seus próprios méritos e em seus próprios ideais, como o homem rico em Marcos 10: 17-18 e o homem em Lucas 9: 57-58, não puderam fazê-lo porque não é possível chegar ao discipulado verdadeiro de forma meritória. Ademais, enfatiza Barth, esses homens não estavam preparados para o discipulado porque ele exige uma resposta incondicional. "A resposta de Jesus deixa claro que essa pessoa não pode ser considerada como um discípulo: 'Ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus'" (p. 20). Nesse sentido, não é possível servir ao Reino e querer manter a servidão às riquezas; não é possível seguir a Deus só depois de realizar uma ou outra tarefa: é necessário deixar aos mortos enterrar os seus próprios mortos.


Barth reafirma o que Bonhoeffer afirmou a respeito do discipulado como simples obediência. A resposta afirmativa ao chamado repousa sobretudo na pessoa que chama. Isso porque não é possível responder sim ao chamado, senão porque é Jesus aquele que chama. O discipulo não atende à convocação baseado em recompensas ou em glórias, mas pela autoridade do Mestre. Mais uma vez a vocação de Levi é o maior exemplo disso. Jesus é o centro do discipulado porque é ele quem nos torna aptos a deixar tudo para segui-lo.


O chamado ao discipulado não é um programa de ação individual ou social comandado por Jesus. Em vez disso, o discipulado é uma relação pessoal com Jesus Cristo. Jesus nos chama pelo nome e possui um propósito para cada um. Não é possível reduzir o discipulado a um padrão de conduta, muito embora ele implique uma excelência moral, porque certas ordens de Deus não são gerais e abstratas, mas individuais e concretas. Jesus, no discipulado, guia as vidas individualmente, particularmente.


Por fim, o discipulado implica uma mudança radical: a transição para uma nova criatura. É o que Barth chama de "golpe de estado" divino, por meio dele Jesus passa a ocupar o lugar central na vida dos discípulos, o que implica em uma mudança de atitude em relação ao mundo, às posses, à honra, à força, aos vínculos humanos e à piedade. É verdade que a resposta afirmativa ao chamado implica auto-negação, mas também é verdade que "se não suportarmos o fardo de Jesus, temos que suportar o fardo que nós mesmo escolhemos, e este é cem vezes mais pesado " (p. 38).


Para saber mais sobre esses temas com mais profundidade e entender melhor o sentido do discipulado, vale a penar ler Chamado ao discipulado de Karl Barth. O livro está disponível em nossa biblioteca!


Citações extraídas de: Barth, Karl. Chamado ao discipulado. Trad.: Moisés Carneiro Coelho, São Paulo: Fonte Editorial, 2006.