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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Oração para que eu seja um bom samaritano


Novamente divulgamos um poema de Gióia Jr., esse talentoso poeta cristão brasileiro, que fala de uma história do Novo Testamento. Trata-se da parábola do bom samaritano. No poema que segue, um soneto, o poeta expressa o seu desejo de ser mais como o samaritano, que não ostenta nenhuma aura de santidade ou de religiosidade especial, mas ainda assim é o único que pratica a verdadeira religião, cuidando do homem ferido no caminho, ao contrário do sacerdote e do levita que, apesar de "religiosos", nada fizeram. Afirma o poeta que a vida é como aquele caminho, ao longo dele há muitos feridos. Sejamos, portanto, samaritanos no caminho da vida.


Oração para que eu seja um bom samaritano

Por Gióia Jr.


A nossa vida é um caminhar também

do pó primeiro ao derradeiro pó...

Partimos de qualquer Jerusalém

Para alcançar alguma Jericó.

Vamos assim despreocupados, sem

Pensar... e vemos, atirado e só,

Um pobre peregrino, sobre quem

Socos e pontapés deram sem dó...

Seja eu que caminhe de alma aflita

E veja o réu da fúria do chicote

Para que num esforço sobre-humano,

Mate a minha tendência de Levita,

Dobre o meu coração de sacerdote,

E surja como um Bom Samaritano!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A mulher adúltera


O texto da semana é um poema de Gióia Júnior (1931-1996) que trata liricamente da conhecida passagem bíblica do Capítulo 8 do evangelho de João. Aí o evangelista mostra o cerne ministério de Jesus como salvador e não como juiz do mundo. Assim como a mulher adúltera, merecíamos morrer como retribuição pelo nosso pecado. No entanto, Jesus, o único digno de ser juiz, demonstrou um caminho mais sublime: o caminho da graça! Nesse sentido, todos nós somos aquela mulher e podemos experimentar esse sublime livramento. Graças a Deus por isso!


A mulher adúltera

Por Gióia Júnior

Manhã, clara manhã de sol rompendo as brumas,

como um barco vermelho a singrar entre espumas...

Campo de Luta. O sol é um gladiador selvagem

e tinge com seu sangue a sombra da paisagem...

...Jesus, depois de orar a noite inteira, envolto

em manto singelo, o cabelo revolto,

a barba em desalinho, as sandálias manchadas

pelo vermelho pó das longas caminhadas,

ensinava no templo apresentando ao povo

a larga nitidez de um horizonte novo...

A estrada do porvir, imensa, inatingida,

a nova Canaã, a Terra Prometida,

que Moisés procurou no meio do deserto,

parecia tão longe e estava ali tão perto!

Ele era a porta aberta, o ensinamento, o exemplo...

Nisto um bando sinistro avança pelo Templo,

escribas, fariseus, num cínico mister:

- Prendamos a Jesus, matemos a mulher!

... Em meio ao burburinho uma jovem bonita,

pálida, maltratada, atirada e maldita

pela lei de Moisés, esperava a sentença,

"o prêmio do pecado", a negra recompensa

de um ilícito amor. Envergonhada e muda,

aguardava o suplício, a pedra pontiaguda

que em seu corpo moreno, em ferida medonha

selaria a desgraça, o martírio, a vergonha...

Depois, a treva imensa e um corpo ensangüentado

expostos para exemplo: "o prêmio do pecado".

Fora presa em seu leito imundo e deletério

no instante em que a paixão se fizera adultério.

No intenso vozerio, uma voz se levanta:

- Jesus de Nazaré, que dizes desta santa?!

Merece a maldição que nossa lei ensina,

ou merece o perdão que é da tua doutrina?...

Jesus indiferente, alheio à multidão,

abaixa-se a escrever com o dedo no chão.

Depois, ergue-se altivo, os olhos vivos, a alma

profundamente clara, imensamente calma,

e destrói a pergunta em um único brado:

- Lance a primeira pedra o que não tem pecado!

Abaixa-se de novo o Pai dos Evangelhos

e o povo se dispersa, a partir dos mais velhos.

Só Jesus e a mulher. O perdão e o pecado,

a negra escuridão e o dia iluminado...

A humilde pecadora aguarda comovida

o fim que lhe daria o que lhe dera a vida...

- Ninguém te condenou? - pergunta o Nazareno.

- Ninguém, Senhor, ninguém. - Pois nem eu te condeno.

E, erguendo meigamente os olhos paternais,

falou: - Podes partir. Mulher, não peques mais!!!


Para mais poemas de Gióia Júnior, acesse: http://www.geocities.com/feguizze/index.htm