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domingo, 24 de abril de 2011

Cristo vive!

"The Empty Tomb", de B.Farrell Beckner, 1999.


Eu sei que meu Redentor vive

Gióia Junior


Onde estou? eu não sei -

e nem sei onde estive

e nem onde estarei -

mas eu sei que Ele vive!


E como sei que vive

o meu Senhor e Rei,

sei que com Ele estive

e com Ele estarei!


Se há razão que motive

a paz, eis sua lei:

o meu Redentor vive

e eu também viverei!





3 Irmãos - Antologia:

Um Pouco do Melhor da PoesiaEvangélica em Língua Portuguesa

Organização de Sammis Reachers



- Gióia Júnior (Rafael Gióia Martins Júnior) nasceu em Campinas, em 1931. Poeta, Jornalista, radialista, Político e Professor universitário. Foi Vereador, Deputado Estadual em São Paulo e foi também Deputado Federal. Escreveu, entre outros, os seguintes livros: “Cântico Novo”, “Menino Pobre”, “Aparecem as Flores na Terra”, “Estátuas de Sal”, Canto Maior” e “Bem-me-Quer”.



- Imagem: "The Empty Tomb", de B.Farrell Beckner, 1999.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A Cristo na cruz

Baltasar Estaço (1565-?) foi um padre e poeta português, autor de uma obra curtíssima, porém respeitável. O poema transcrito ilustra bem o caráter substitutivo da morte de Jesus, que toma nosso lugar na humilhação e na morte para que possamos, pelos merecimentos dEle, herdar os bens que não merecemos.

A Cristo na cruz
Por Baltasar Estaço

O bem que a tantos bens me convidava,
O qual desmereci, vós merecestes
Que a vida que por meu amor perdestes,
A vida me alcançou que eu desejava.

O mal que a tantos males me obrigava,
O qual não satisfiz, satisfizestes,
Que a morte que por meu amor sofrestes,
Da morte me livrou, que eu receava.

A vós Deus amoroso, a vós só amo,
De vós pratico, só, de vós escrevo,
Por vós a vida dou, e a morte quero,

Em vós fogo de amor, em vós me inflamo,
Pois que pago por vós o mal que devo,
E mereço por vós, o bem que espero.

terça-feira, 11 de maio de 2010

À Coroa de Espinhos

Agostinho da Cruz (1540-1619) é o nome pelo qual ficou conhecido o poeta português Agostinho Pimenta, Frei da ordem de São Francisco. Sua poesia ficou marcada pelo fervor espiritual com que traduzia suas experiências com Deus para os versos. O poema transcrito fala da pureza do amor de Cristo, que, mesmo rejeitado, entregou-se para a redenção daqueles que o haviam desprezado. Morto de amor, Cristo de amor mata a morte, a maldição antiga. A coroa de espinhos, que dá título ao poema, simboliza essa dinâmica: os espinho que ferem o Senhor, são então destruídos.
À coroa de espinhos
Agostinho da Cruz


A que vindes, Senhor do Céu à terra,
Terra que sendo vossa vos enjeita,
E que tanto vos honra e vos respeita,
Que em não vos receber insiste e emperra?

Ah! Quanta ingratidão nela s’encerra!
Quão mal de vossa vinda se aproveita!
Pois se põe a tomar-vos conta estreita,
Mais brada contra vós, quanto mais erra.

E vós de vosso amor puro forçado
Os malditos espinhos lhe pisais,
Dos quais ainda sendo coroado,

A maldição antiga lhe trocais
Na bênção, que lhe dais crucificado,
Quando morto d’amor, d’amor matais.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Oh Rei dos reis, oh Árbitro do mundo


Publicamos novamente um poema do grande Bocage. Desta vez um poema que trata do reconhecimento do pecado na vida do poeta e da sua incapacidade de livrar-se de suas correntes sem a ajuda do Senhor.

"Compadece-te de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; e, segundo a multidão das tuas misericórdias, apaga as minhas transgressões. Lava-me completamente da minha iniqüidade e purifica-me do meu pecado. Pois eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim. Pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o que é mau perante os teus olhos, de maneira que serás tido por justo no teu falar e puro no teu julgar. Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe. Eis que te comprazes na verdade no íntimo e no recôndito me fazes conhecer a sabedoria. Purifica-me com hissopo, e ficarei limpo; lava-me, e ficarei mais alvo que a neve. Faze-me ouvir júbilo e alegria, para que exultem os ossos que esmagaste. Esconde o rosto dos meus pecados e apaga todas as minhas iniqüidades.Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável. Não me repulses da tua presença, nem me retires o teu Santo Espírito. Restitui-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito voluntário. Então, ensinarei aos transgressores os teus caminhos, e os pecadores se converterão a ti." (Sl 51. 1-13)

Soneto
Por Manuel Maria Barbosa du Bocage

Oh Rei dos reis, oh Árbitro do mundo,
Cuja mão sacrossanta os maus fulmina,
E a cuja voz terrífica, e divina
Lúcifer treme no seu caos profundo!

Lava-me as nódoas do pecado imundo,
Que as almas cega, as almas contamina:
O rosto para mim piedoso inclina,
Do eterno império Teu, do Céu rotundo:

Estende o braço, a lágrimas propício,
Solta-me os ferros, em que choro e gemo
Na extremidade já do precipício:

De mim próprio me livra, oh Deus supremo!
Porque o meu coração propenso ao vício
É, Senhor, o contrário que mais temo.

quarta-feira, 24 de março de 2010

A existência de Deus, provada pelas obras da criação


Bocage (1765-1805) foi o maior representante português do movimento arcadista e um dos maiores poetas de língua portuguesa. No poema transcrito, Bocage argumenta que não só a fé aponta para a existência de Deus, mas também a razão, por meio da experiência da grandeza e da ordem presentes na natureza. O poeta traduz liricamente as idéias da Teologia Natural, que eram duramente disputadas no século XVIII e que até hoje permanecem objeto de controvérsia. De qualquer forma, a idéia de que a natureza proclama a glória de Deus está presente em diversas passagens bíblicas, ainda que não esteja implicado necessariamente o conceito de prova como demonstração racional.

A existência de Deus, provada pelas obras da criação

Por Manuel Maria Barbosa du Bocage


Os milhões de áureos lustres coruscantes
Que estão da azul abóbada pendendo;

O Sol e a que ilumina o trono horrendo
Dessa que anima os ávidos amantes;

As vastíssimas ondas arrogantes,
Serras de espuma contra os céus erguendo;

A leda fonte humilde o chão lambendo,
Lourejando as searas flutuantes;


O vil mosquito, a próvida formiga,
A rama chocalheira, o tronco mudo:

Tudo que há Deus a confessar me obriga.


E para crer num braço, autor de tudo,

Que recompensa os bons, que os maus castiga,

Não só da fé, mas da razão me ajudo.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Tempo


António da Fonseca Soares (1631-1682) foi um frade franciscano e poeta português. Em 1662, decidiu abraçar o sacerdócio e a vida monástica, mas acabou se destacando pela beleza de suas poesias. Inserido no padrões estéticos barrocos, seus poemas são permeados do cultismo e do conceptualismo. O soneto transcrito abaixo trabalha a idéia de tempo por meio de vários pequenos jogos lingüísticos num progredir lógico até a conclusão de que devemos usar nosso tempo com sabedoria por conta de nossa finitude e porque prestaremos conta de nosso tempo a Deus.


Soneto

Por Frei António das Chagas

Deus pede hoje estrita conta do meu tempo

E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta.

Mas como dar, sem tempo, tanta conta

Eu que gastei sem conta tanto tempo?

Para ter minha conta feita a tempo,

O tempo me foi dado e não fiz conta.

Não quis, tendo tempo, fazer conta.

Hoje quero fazer conta e não há tempo.

Oh! Vós, que tendes tempo sem ter conta,

Não gasteis vosso tempo em passatempo.

Cuidai, enquanto é tempo em fazer conta.

Pois aqueles que sem conta gastam tempo,

Quando o tempo chegar de prestar conta,

Chorarão, como eu, se não der tempo.


quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Oração para que eu seja um bom samaritano


Novamente divulgamos um poema de Gióia Jr., esse talentoso poeta cristão brasileiro, que fala de uma história do Novo Testamento. Trata-se da parábola do bom samaritano. No poema que segue, um soneto, o poeta expressa o seu desejo de ser mais como o samaritano, que não ostenta nenhuma aura de santidade ou de religiosidade especial, mas ainda assim é o único que pratica a verdadeira religião, cuidando do homem ferido no caminho, ao contrário do sacerdote e do levita que, apesar de "religiosos", nada fizeram. Afirma o poeta que a vida é como aquele caminho, ao longo dele há muitos feridos. Sejamos, portanto, samaritanos no caminho da vida.


Oração para que eu seja um bom samaritano

Por Gióia Jr.


A nossa vida é um caminhar também

do pó primeiro ao derradeiro pó...

Partimos de qualquer Jerusalém

Para alcançar alguma Jericó.

Vamos assim despreocupados, sem

Pensar... e vemos, atirado e só,

Um pobre peregrino, sobre quem

Socos e pontapés deram sem dó...

Seja eu que caminhe de alma aflita

E veja o réu da fúria do chicote

Para que num esforço sobre-humano,

Mate a minha tendência de Levita,

Dobre o meu coração de sacerdote,

E surja como um Bom Samaritano!

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A Bíblia: em um dia de tristeza


Gonçalves de Magalhães (1811-1882) é conhecido pelo fato de ter introduzido o Romantismo literário no Brasil. A maioria dos livros didáticos de literatura aponta sua obra Suspiros poéticos e saudades (1836) como o marco de inicial do movimento no Brasil. Embora não seja considerado pelos críticos como um poeta da estatura de Gonçalves Dias ou de Castro Alves, é possível encontrar em sua obra lampejos líricos de qualidade inquestionável. Um desses lampejos é o poema reproduzido abaixo que fala da bíblia como o consolo do poeta na tribulação e na tristeza.


A Bíblia

Em um dia de tristeza

Por Domingos José Gonçalves de Magalhães


(...)


Livro sagrado,

Vem consolar-me,

Vem saciar-me

Na minha dor.

Meu peito ansiado

De ti carece,

Sem ti falece

O meu vigor.

A ti recorro

Triste e sedento,

Que este tormento

Me faz gemer.

Dá-me socorro

No mal extremo,

Vem, senão temo

À dor ceder.


Cada palavra,

Que me vás dando,

É qual um brando,

Suave mel.

Já em mim lavra

A paz do empíreo;

Do meu martírio

Se adoça o fel.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Zaqueu


Francis Quarles (1594-1644) foi um poeta inglês bastante popular por fazer paráfrases líricas de diversas passagens das escrituras. O poema da semana é uma paráfrase do episódio do Evangelho de Lucas em que o publicano Zaqueu, porque era de baixa estatura, sobe em uma árvore para ver Jesus. Zaqueu, tido como traidor do povo judeu por servir o governo romano, não se intimidou frente à passagem de Jesus e se apresentou assim como estava, sem ter vergonha de subir em uma árvore para que o Mestre o notasse. Devemos ser mais como Zaqueu e não deixar que Jesus passe por nossa indiferença e apatia, mas apresentar a Ele corajosamente nossas vidas para que ele então entre em nossas casas e sejamos salvos.


"Entrando em Jericó, atravessava Jesus a cidade. Eis que um homem, chamado Zaqueu, maioral dos publicanos e rico, procurava ver quem era Jesus, mas não podia, por causa da multidão, por ser ele de pequena estatura. Então, correndo adiante, subiu a um sicômoro a fim de vê-lo, porque por ali havia de passar. Quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa. Ele desceu a toda a pressa e o recebeu com alegria. Todos os que viram isto murmuravam, dizendo que ele se hospedara com homem pecador. Entrementes, Zaqueu se levantou e disse ao Senhor: Senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais.Então, Jesus lhe disse: Hoje, houve salvação nesta casa, pois que também este é filho de Abraão. Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido." Lucas 19: 1-10


Zaqueu

Por Francis Quarles


Tradução de Aíla de Oliveira Gomes, extraído de: Gomes, Aíla de Oliveira. Poesia Metafísica: uma antologia. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p.151.


Parece-me ver com quanta sofreguidão

Zaqueu subiu na árvore. Mas oh!, então,

O salvador o chama, e com que rapidez,

Vê só, com quanta pressa, ele desce outra vez!

Sem nem pensar se os galhos são firmes ou não,

Sem nem medir a sua distância do chão.

Não há perigo a temer. Àquele Chamado,

Quem teme a queda põe em risco o seu bocado.

O Espírito o dirige - tens de descer, Zaqueu.

Não hás de cair, a não ser cair no céu.

Lá salta então Zaqueu da árvore, embevecido -

Nem tão rápido cai o pássaro atingido

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A mulher adúltera


O texto da semana é um poema de Gióia Júnior (1931-1996) que trata liricamente da conhecida passagem bíblica do Capítulo 8 do evangelho de João. Aí o evangelista mostra o cerne ministério de Jesus como salvador e não como juiz do mundo. Assim como a mulher adúltera, merecíamos morrer como retribuição pelo nosso pecado. No entanto, Jesus, o único digno de ser juiz, demonstrou um caminho mais sublime: o caminho da graça! Nesse sentido, todos nós somos aquela mulher e podemos experimentar esse sublime livramento. Graças a Deus por isso!


A mulher adúltera

Por Gióia Júnior

Manhã, clara manhã de sol rompendo as brumas,

como um barco vermelho a singrar entre espumas...

Campo de Luta. O sol é um gladiador selvagem

e tinge com seu sangue a sombra da paisagem...

...Jesus, depois de orar a noite inteira, envolto

em manto singelo, o cabelo revolto,

a barba em desalinho, as sandálias manchadas

pelo vermelho pó das longas caminhadas,

ensinava no templo apresentando ao povo

a larga nitidez de um horizonte novo...

A estrada do porvir, imensa, inatingida,

a nova Canaã, a Terra Prometida,

que Moisés procurou no meio do deserto,

parecia tão longe e estava ali tão perto!

Ele era a porta aberta, o ensinamento, o exemplo...

Nisto um bando sinistro avança pelo Templo,

escribas, fariseus, num cínico mister:

- Prendamos a Jesus, matemos a mulher!

... Em meio ao burburinho uma jovem bonita,

pálida, maltratada, atirada e maldita

pela lei de Moisés, esperava a sentença,

"o prêmio do pecado", a negra recompensa

de um ilícito amor. Envergonhada e muda,

aguardava o suplício, a pedra pontiaguda

que em seu corpo moreno, em ferida medonha

selaria a desgraça, o martírio, a vergonha...

Depois, a treva imensa e um corpo ensangüentado

expostos para exemplo: "o prêmio do pecado".

Fora presa em seu leito imundo e deletério

no instante em que a paixão se fizera adultério.

No intenso vozerio, uma voz se levanta:

- Jesus de Nazaré, que dizes desta santa?!

Merece a maldição que nossa lei ensina,

ou merece o perdão que é da tua doutrina?...

Jesus indiferente, alheio à multidão,

abaixa-se a escrever com o dedo no chão.

Depois, ergue-se altivo, os olhos vivos, a alma

profundamente clara, imensamente calma,

e destrói a pergunta em um único brado:

- Lance a primeira pedra o que não tem pecado!

Abaixa-se de novo o Pai dos Evangelhos

e o povo se dispersa, a partir dos mais velhos.

Só Jesus e a mulher. O perdão e o pecado,

a negra escuridão e o dia iluminado...

A humilde pecadora aguarda comovida

o fim que lhe daria o que lhe dera a vida...

- Ninguém te condenou? - pergunta o Nazareno.

- Ninguém, Senhor, ninguém. - Pois nem eu te condeno.

E, erguendo meigamente os olhos paternais,

falou: - Podes partir. Mulher, não peques mais!!!


Para mais poemas de Gióia Júnior, acesse: http://www.geocities.com/feguizze/index.htm

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Sonetos Santos


John Donne (1572-1631) foi poeta inglês e pastor da Igreja Anglicana. Sua obra foi profundamente marcada pelo seu relacionamento com Deus e pela forma como lidou com o sofrimento. O conhecido escritor cristão Philip Yancey afirmou que a obra de Donne foi fundamental para a sua compreensão de como o cristão deve lidar com a dor e como Deus atua nas vidas daqueles que têm essa experiência. Além de poeta, Donne era também um grande pregador, muitos dos seus sermões são lidos e admirados até hoje. A principal obra lírica cristã de Donne é a coletânia de poemas chamada Sonetos Santos. O soneto transcrito abaixo trata do perdão redentor de Cristo concedido mediante o arrependimento. "Lava-me completamente da minha iniqüidade, e purifica-me do meu pecado, porque eu conheço as minhas trangressões, e o meu pecado está diante de mim." Salmos 51:7.


Sonetos santos

IV

Por John Donne


Tradução de Afonso Felix de Sousa, extraído de: Donne, John. Sonetos de Meditação. Rio de Janeiro: Philobiblion, 1985, p. 41.


Ó minha negra Alma! agora que é bem clara

A voz do mal, da morte o arauto e o paladino,

És qual réu por traição que se fez peregrino

e não ousou voltar à pátria que deixara,

Ou és como um ladrão antes de condenado

À morte, que só quer livrar-se da prisão,

Mas que ao ver-se arrastado, face à execução,

Quer voltar a ser preso, ainda que abominado.

Terás, se te arrependes, a graça como fruto,

Sim, mas quem te dará a graça da intenção?

Oh, que te vistas com sagrado e negro luto

E então te ruborizes, como a pedir perdão;

Ou banha-te no sangue de Cristo, com poder

De, ainda que vermelho, almas embranquecer.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Atos de contrição e suspiros de amor


Gregório de Matos e Guerra (1636-1695) foi poeta e advogado, nascido no Brasil-colônia - na cidade de Salvador-, ficou conhecido por suas poesias satíricas em que criticava a imoralidade da administração colonial e os costumes de sua época. O grande pregador Pe. Antônio Vieira chegou a dizer que os poemas de Gregório de Matos tinham maior fruto do que seus sermões. O poeta bahiano também ganhou renome pelos seus belos poemas religiosos. Podemos dizer que o principal tema de sua lírica cristã era o arrependimento e a contrição e o correspondente perdão e amor de Deus. O poema transcrito demonstra exatamente esse quebrantamento de coração daquele que convencido do seu pecado pode voltar-se para o abraço divino por meio do perdão.


A N. S. Jesus Cristo com atos de contrição e suspiros de amor

Por Gregório de Matos


Ofendi-vos, meu Deus, bem é verdade,

É verdade, meu Deus, que hei deliqüido,

Deliqüido vos tenho, e ofendido,

ofendido vos tem minha maldade.


Maldade, que encaminha à vaidade,

Vaidade, que todo me há vencido;

Vencido quero ver-me, e arrependido,

Arrependido a tanta enormidade.


Arrependido estou de coração,

De coração vos busco, daí-me os braços,

Abraços, que me rendem vossa luz.


Luz, que claro, me mostra a salvação,

A salvação pretendo em tais abraços,

Misericórdia, Amor, Jesus, Jesus

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O altar


George Herbert (1593-1633) foi sacerdote da Igreja da Inglaterra e dedicou sua poesia ao serviço do evangelho, especialmente nos últimos dias de sua produção literária. Sua obra é considerada uma autobiografia espiritual e influenciou várias gerações de poetas e leitores. O poema O altar, transcrito abaixo, usa uma técnica de representação icônica semelhante ao do poema A cruz de Fagundes Varela, que já postamos aqui no blog. Nele o poeta dedica o seu coração como um altar para prestar o louvor e sacrifício que verdadeiramente agradam a Deus. "Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional" Romanos 12:1


O altar

Por George Herbert


Tradução de Aíla de Oliveira Gomes, extraído de: Gomes, Aíla de Oliveira. Poesia Metafísica: uma antologia. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 92.


Senhor, teu servo te levanta um ALTAR quebrado,

Feito de um coração, e de lágrimas cimentado,

Cujas partes são como tua mão os moldou;

Instrumento algum um outro assim criou.

CORAÇÃO solitário,

Nenhum lapidário

Capaz de o lavrar

Com Tu'arte ímpar.

Coração de pedra,

Cada caco informe

Se une e se queda

A louvar teu Nome.

Por isso, se eu consigo alcançar a paz,

Destas pedras aqui teu louvor ouvirás.

Oh! permite que o SACRIFÍCIO aqui seja meu,

E santifica este ALTAR, para que seja teu.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O Profeta

"No ano em que morreu o rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as orlas do seu manto enchiam o templo. Ao seu redor havia serafins; cada um tinha seis asas; com duas cobria o rosto, e com duas cobria os pés e com duas voava. E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos; a terra toda está cheia da sua glória. E as bases dos limiares moveram-se à voz do que clamava, e a casa se enchia de fumaça. Então disse eu: Ai de mim! pois estou perdido; porque sou homem de lábios impuros, e habito no meio dum povo de impuros lábios; e os meus olhos viram o rei, o Senhor dos exércitos! Então voou para mim um dos serafins, trazendo na mão uma brasa viva, que tirara do altar com uma tenaz; e com a brasa tocou-me a boca, e disse: Eis que isto tocou os teus lábios; e a tua iniqüidade foi tirada, e perdoado o teu pecado. Depois disto ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem irá por nós? Então disse eu: Eis-me aqui, envia-me a mim." (Isaías 6: 1-8)


O poema seguinte foi escrito por Aleksandr Púchkin (1799-1837), considerado o fundador da literatura moderna russa e maior poeta nacional russo. O poema trata liricamente da vocação do profeta, inspirado no trecho transcrito de Isaías. O texto mostra a purificação dos lábios realizada por Deus na vida do profeta e sua consagração como porta-voz d'Ele para "inflamar os corações humanos". Que possamos dedicar nossas vozes a proclamar a Palavra de Deus ao coração do mundo!


Nota: O trabalho de tradução de poemas exige uma reconstrução que, ao mesmo tempo, mantenha fidelidade de conteúdo e beleza de forma. Felizmente, temos duas boas traduções desse poema em português. Transcrevemos abaixo as duas: a primeira de Nina e Filipe Guerra, tradução portuguesa; e a segunda de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher, tradução brasileira.

O profeta

Por A. S. Púchkin.


Tradução por Nina Guerra e Filipe Guerra, extraído de: Frank, Joseph. Dostoiévski: O manto do profeta. São Paulo Edusp, 2007, p. 24.


Com o espírito morto de sede,

Rojo-me num deserto escuro,

E voa um anjo de seis asas

Na encruzilhada dos meus rumos.

Com dedos leves como o sonho

O serafim toca-me os olhos:

Uns olhos profetas se abriram

Como os da águia assustada.

Eis que me assoma os ouvidos

E os enche de alvoroço:

Escuto o tremer do céu, o alto

Vôo dos anjos, o deslizar

Subáqueo do monstro marinho

E a rosa a crescer no vale.

Sobre minha boca se inclina

E arranca a língua ardilosa,

Carpideira, iníqua e vã,

E com a destra ensangüentada

Põe o dardo da sábia cobra

Na minha boca silenciada.

Com a espada me corta o peito,

O meu coração latejante

Despega, e no vão negro do seio

O anjo mete a brasa viva.

Estou, como morto, no deserto

E a voz de Deus por mim clama:

Ergue-te, ouve e vê, profeta,

Da minha vontade te tomes,

Mares e terras percorre, queime

Meu verbo no coração dos homens.


Tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher, extraído de: Púchkin, Aleksandr. A dama de espadas: prosa e poemas. São Paulo: Editora 34, 2006, p. 240-241.


Num ermo, eu de âmago sedento

já me arrastava e, frente a mim,

surgiu com seis asas ao vento,

na encruzilhada, um serafim;

ele me abriu, com dedos vagos

qual sono, os olhos que, pressagos,

tudo abarcaram com presteza

que nem olhar de águia surpresa;

ele tocou-me cada ouvido

e ambos se encheram de alarido:

ouvi mover-se o firmamento,

anjos cruzando o céu, rasteiras

criaturas sob o mar e o lento

crescer, no vale, das videiras.

Junto a meus lábios, rasgou minha

língua arrogante, que não tinha,

salvo enganar, qualquer intuito,

da boca fria onde, depois,

com mão sangrenta ele me pôs

um aguilhão de ofídio arguto.

Vibrando o gládio com porfia,

tirou-me o coração do peito

e colocou carvão que ardia

dentro do meu tórax desfeito.

Jazendo eu hirto no deserto,

o Senhor disse-me: "Olho aberto,

de pé, profeta e, com teu verbo,

cruzando as terras, os oceanos,

cheio do meu afã soberbo,

inflama os corações humanos!"