"The Empty Tomb", de B.Farrell Beckner, 1999.E como sei que vive
"The Empty Tomb", de B.Farrell Beckner, 1999.Baltasar Estaço (1565-?) foi um padre e poeta português, autor de uma obra curtíssima, porém respeitável. O poema transcrito ilustra bem o caráter substitutivo da morte de Jesus, que toma nosso lugar na humilhação e na morte para que possamos, pelos merecimentos dEle, herdar os bens que não merecemos.



António da Fonseca Soares (1631-1682) foi um frade franciscano e poeta português. Em 1662, decidiu abraçar o sacerdócio e a vida monástica, mas acabou se destacando pela beleza de suas poesias. Inserido no padrões estéticos barrocos, seus poemas são permeados do cultismo e do conceptualismo. O soneto transcrito abaixo trabalha a idéia de tempo por meio de vários pequenos jogos lingüísticos num progredir lógico até a conclusão de que devemos usar nosso tempo com sabedoria por conta de nossa finitude e porque prestaremos conta de nosso tempo a Deus.
Soneto
Por Frei António das Chagas
Deus pede hoje estrita conta do meu tempo
E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas como dar, sem tempo, tanta conta
Eu que gastei sem conta tanto tempo?
Para ter minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado e não fiz conta.
Não quis, tendo tempo, fazer conta.
Hoje quero fazer conta e não há tempo.
Oh! Vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo em fazer conta.
Pois aqueles que sem conta gastam tempo,
Quando o tempo chegar de prestar conta,
Chorarão, como eu, se não der tempo.

Novamente divulgamos um poema de Gióia Jr., esse talentoso poeta cristão brasileiro, que fala de uma história do Novo Testamento. Trata-se da parábola do bom samaritano. No poema que segue, um soneto, o poeta expressa o seu desejo de ser mais como o samaritano, que não ostenta nenhuma aura de santidade ou de religiosidade especial, mas ainda assim é o único que pratica a verdadeira religião, cuidando do homem ferido no caminho, ao contrário do sacerdote e do levita que, apesar de "religiosos", nada fizeram. Afirma o poeta que a vida é como aquele caminho, ao longo dele há muitos feridos. Sejamos, portanto, samaritanos no caminho da vida.
Oração para que eu seja um bom samaritano
Por Gióia Jr.
A nossa vida é um caminhar também
do pó primeiro ao derradeiro pó...
Partimos de qualquer Jerusalém
Para alcançar alguma Jericó.
Vamos assim despreocupados, sem
Pensar... e vemos, atirado e só,
Um pobre peregrino, sobre quem
Socos e pontapés deram sem dó...
Seja eu que caminhe de alma aflita
E veja o réu da fúria do chicote
Para que num esforço sobre-humano,
Mate a minha tendência de Levita,
Dobre o meu coração de sacerdote,
E surja como um Bom Samaritano!

Gonçalves de Magalhães (1811-1882) é conhecido pelo fato de ter introduzido o Romantismo literário no Brasil. A maioria dos livros didáticos de literatura aponta sua obra Suspiros poéticos e saudades (1836) como o marco de inicial do movimento no Brasil. Embora não seja considerado pelos críticos como um poeta da estatura de Gonçalves Dias ou de Castro Alves, é possível encontrar em sua obra lampejos líricos de qualidade inquestionável. Um desses lampejos é o poema reproduzido abaixo que fala da bíblia como o consolo do poeta na tribulação e na tristeza.
A Bíblia
Em um dia de tristeza
Por Domingos José Gonçalves de Magalhães
(...)
Livro sagrado,
Vem consolar-me,
Vem saciar-me
Na minha dor.
Meu peito ansiado
De ti carece,
Sem ti falece
O meu vigor.
A ti recorro
Triste e sedento,
Que este tormento
Me faz gemer.
Dá-me socorro
No mal extremo,
Vem, senão temo
À dor ceder.
Cada palavra,
Que me vás dando,
É qual um brando,
Suave mel.
Já em mim lavra
A paz do empíreo;
Do meu martírio
Se adoça o fel.

Francis Quarles (1594-1644) foi um poeta inglês bastante popular por fazer paráfrases líricas de diversas passagens das escrituras. O poema da semana é uma paráfrase do episódio do Evangelho de Lucas em que o publicano Zaqueu, porque era de baixa estatura, sobe em uma árvore para ver Jesus. Zaqueu, tido como traidor do povo judeu por servir o governo romano, não se intimidou frente à passagem de Jesus e se apresentou assim como estava, sem ter vergonha de subir em uma árvore para que o Mestre o notasse. Devemos ser mais como Zaqueu e não deixar que Jesus passe por nossa indiferença e apatia, mas apresentar a Ele corajosamente nossas vidas para que ele então entre em nossas casas e sejamos salvos.
"Entrando em Jericó, atravessava Jesus a cidade. Eis que um homem, chamado Zaqueu, maioral dos publicanos e rico, procurava ver quem era Jesus, mas não podia, por causa da multidão, por ser ele de pequena estatura. Então, correndo adiante, subiu a um sicômoro a fim de vê-lo, porque por ali havia de passar. Quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa. Ele desceu a toda a pressa e o recebeu com alegria. Todos os que viram isto murmuravam, dizendo que ele se hospedara com homem pecador. Entrementes, Zaqueu se levantou e disse ao Senhor: Senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais.Então, Jesus lhe disse: Hoje, houve salvação nesta casa, pois que também este é filho de Abraão. Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido." Lucas 19: 1-10
Zaqueu
Por Francis Quarles
Tradução de Aíla de Oliveira Gomes, extraído de: Gomes, Aíla de Oliveira. Poesia Metafísica: uma antologia. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p.151.
Parece-me ver com quanta sofreguidão
Zaqueu subiu na árvore. Mas oh!, então,
O salvador o chama, e com que rapidez,
Vê só, com quanta pressa, ele desce outra vez!
Sem nem pensar se os galhos são firmes ou não,
Sem nem medir a sua distância do chão.
Não há perigo a temer. Àquele Chamado,
Quem teme a queda põe em risco o seu bocado.
O Espírito o dirige - tens de descer, Zaqueu.
Não hás de cair, a não ser cair no céu.
Lá salta então Zaqueu da árvore, embevecido -
Nem tão rápido cai o pássaro atingido

O texto da semana é um poema de Gióia Júnior (1931-1996) que trata liricamente da conhecida passagem bíblica do Capítulo 8 do evangelho de João. Aí o evangelista mostra o cerne ministério de Jesus como salvador e não como juiz do mundo. Assim como a mulher adúltera, merecíamos morrer como retribuição pelo nosso pecado. No entanto, Jesus, o único digno de ser juiz, demonstrou um caminho mais sublime: o caminho da graça! Nesse sentido, todos nós somos aquela mulher e podemos experimentar esse sublime livramento. Graças a Deus por isso!
A mulher adúltera
Por Gióia Júnior
Manhã, clara manhã de sol rompendo as brumas,
como um barco vermelho a singrar entre espumas...
Campo de Luta. O sol é um gladiador selvagem
e tinge com seu sangue a sombra da paisagem...
...Jesus, depois de orar a noite inteira, envolto
em manto singelo, o cabelo revolto,
a barba em desalinho, as sandálias manchadas
pelo vermelho pó das longas caminhadas,
ensinava no templo apresentando ao povo
a larga nitidez de um horizonte novo...
A estrada do porvir, imensa, inatingida,
a nova Canaã, a Terra Prometida,
que Moisés procurou no meio do deserto,
parecia tão longe e estava ali tão perto!
Ele era a porta aberta, o ensinamento, o exemplo...
Nisto um bando sinistro avança pelo Templo,
escribas, fariseus, num cínico mister:
- Prendamos a Jesus, matemos a mulher!
... Em meio ao burburinho uma jovem bonita,
pálida, maltratada, atirada e maldita
pela lei de Moisés, esperava a sentença,
"o prêmio do pecado", a negra recompensa
de um ilícito amor. Envergonhada e muda,
aguardava o suplício, a pedra pontiaguda
que em seu corpo moreno, em ferida medonha
selaria a desgraça, o martírio, a vergonha...
Depois, a treva imensa e um corpo ensangüentado
expostos para exemplo: "o prêmio do pecado".
Fora presa em seu leito imundo e deletério
no instante em que a paixão se fizera adultério.
No intenso vozerio, uma voz se levanta:
- Jesus de Nazaré, que dizes desta santa?!
Merece a maldição que nossa lei ensina,
ou merece o perdão que é da tua doutrina?...
Jesus indiferente, alheio à multidão,
abaixa-se a escrever com o dedo no chão.
Depois, ergue-se altivo, os olhos vivos, a alma
profundamente clara, imensamente calma,
e destrói a pergunta em um único brado:
- Lance a primeira pedra o que não tem pecado!
Abaixa-se de novo o Pai dos Evangelhos
e o povo se dispersa, a partir dos mais velhos.
Só Jesus e a mulher. O perdão e o pecado,
a negra escuridão e o dia iluminado...
A humilde pecadora aguarda comovida
o fim que lhe daria o que lhe dera a vida...
- Ninguém te condenou? - pergunta o Nazareno.
- Ninguém, Senhor, ninguém. - Pois nem eu te condeno.
E, erguendo meigamente os olhos paternais,
falou: - Podes partir. Mulher, não peques mais!!!
Para mais poemas de Gióia Júnior, acesse: http://www.geocities.com/feguizze/index.htm

John Donne (1572-1631) foi poeta inglês e pastor da Igreja Anglicana. Sua obra foi profundamente marcada pelo seu relacionamento com Deus e pela forma como lidou com o sofrimento. O conhecido escritor cristão Philip Yancey afirmou que a obra de Donne foi fundamental para a sua compreensão de como o cristão deve lidar com a dor e como Deus atua nas vidas daqueles que têm essa experiência. Além de poeta, Donne era também um grande pregador, muitos dos seus sermões são lidos e admirados até hoje. A principal obra lírica cristã de Donne é a coletânia de poemas chamada Sonetos Santos. O soneto transcrito abaixo trata do perdão redentor de Cristo concedido mediante o arrependimento. "Lava-me completamente da minha iniqüidade, e purifica-me do meu pecado, porque eu conheço as minhas trangressões, e o meu pecado está diante de mim." Salmos 51:7.
Sonetos santos
IV
Por John Donne
Tradução de Afonso Felix de Sousa, extraído de: Donne, John. Sonetos de Meditação. Rio de Janeiro: Philobiblion, 1985, p. 41.
Ó minha negra Alma! agora que é bem clara
A voz do mal, da morte o arauto e o paladino,
És qual réu por traição que se fez peregrino
e não ousou voltar à pátria que deixara,
Ou és como um ladrão antes de condenado
À morte, que só quer livrar-se da prisão,
Mas que ao ver-se arrastado, face à execução,
Quer voltar a ser preso, ainda que abominado.
Terás, se te arrependes, a graça como fruto,
Sim, mas quem te dará a graça da intenção?
Oh, que te vistas com sagrado e negro luto
E então te ruborizes, como a pedir perdão;
Ou banha-te no sangue de Cristo, com poder
De, ainda que vermelho, almas embranquecer.

Gregório de Matos e Guerra (1636-1695) foi poeta e advogado, nascido no Brasil-colônia - na cidade de Salvador-, ficou conhecido por suas poesias satíricas em que criticava a imoralidade da administração colonial e os costumes de sua época. O grande pregador Pe. Antônio Vieira chegou a dizer que os poemas de Gregório de Matos tinham maior fruto do que seus sermões. O poeta bahiano também ganhou renome pelos seus belos poemas religiosos. Podemos dizer que o principal tema de sua lírica cristã era o arrependimento e a contrição e o correspondente perdão e amor de Deus. O poema transcrito demonstra exatamente esse quebrantamento de coração daquele que convencido do seu pecado pode voltar-se para o abraço divino por meio do perdão.
A N. S. Jesus Cristo com atos de contrição e suspiros de amor
Por Gregório de Matos
Ofendi-vos, meu Deus, bem é verdade,
É verdade, meu Deus, que hei deliqüido,
Deliqüido vos tenho, e ofendido,
ofendido vos tem minha maldade.
Maldade, que encaminha à vaidade,
Vaidade, que todo me há vencido;
Vencido quero ver-me, e arrependido,
Arrependido a tanta enormidade.
Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, daí-me os braços,
Abraços, que me rendem vossa luz.
Luz, que claro, me mostra a salvação,
A salvação pretendo em tais abraços,
Misericórdia, Amor, Jesus, Jesus

George Herbert (1593-1633) foi sacerdote da Igreja da Inglaterra e dedicou sua poesia ao serviço do evangelho, especialmente nos últimos dias de sua produção literária. Sua obra é considerada uma autobiografia espiritual e influenciou várias gerações de poetas e leitores. O poema O altar, transcrito abaixo, usa uma técnica de representação icônica semelhante ao do poema A cruz de Fagundes Varela, que já postamos aqui no blog. Nele o poeta dedica o seu coração como um altar para prestar o louvor e sacrifício que verdadeiramente agradam a Deus. "Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional" Romanos 12:1
O altar
Por George Herbert
Tradução de Aíla de Oliveira Gomes, extraído de: Gomes, Aíla de Oliveira. Poesia Metafísica: uma antologia. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 92.
Senhor, teu servo te levanta um ALTAR quebrado,
Feito de um coração, e de lágrimas cimentado,
Cujas partes são como tua mão os moldou;
Instrumento algum um outro assim criou.
CORAÇÃO solitário,
Nenhum lapidário
Capaz de o lavrar
Com Tu'arte ímpar.
Coração de pedra,
Cada caco informe
Se une e se queda
A louvar teu Nome.
Por isso, se eu consigo alcançar a paz,
Destas pedras aqui teu louvor ouvirás.
Oh! permite que o SACRIFÍCIO aqui seja meu,
E santifica este ALTAR, para que seja teu.
"No ano em que morreu o rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as orlas do seu manto enchiam o templo. Ao seu redor havia serafins; cada um tinha seis asas; com duas cobria o rosto, e com duas cobria os pés e com duas voava. E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos; a terra toda está cheia da sua glória. E as bases dos limiares moveram-se à voz do que clamava, e a casa se enchia de fumaça. Então disse eu: Ai de mim! pois estou perdido; porque sou homem de lábios impuros, e habito no meio dum povo de impuros lábios; e os meus olhos viram o rei, o Senhor dos exércitos! Então voou para mim um dos serafins, trazendo na mão uma brasa viva, que tirara do altar com uma tenaz; e com a brasa tocou-me a boca, e disse: Eis que isto tocou os teus lábios; e a tua iniqüidade foi tirada, e perdoado o teu pecado. Depois disto ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem irá por nós? Então disse eu: Eis-me aqui, envia-me a mim." (Isaías 6: 1-8)
O poema seguinte foi escrito por Aleksandr Púchkin (1799-1837), considerado o fundador da literatura moderna russa e maior poeta nacional russo. O poema trata liricamente da vocação do profeta, inspirado no trecho transcrito de Isaías. O texto mostra a purificação dos lábios realizada por Deus na vida do profeta e sua consagração como porta-voz d'Ele para "inflamar os corações humanos". Que possamos dedicar nossas vozes a proclamar a Palavra de Deus ao coração do mundo!
Nota: O trabalho de tradução de poemas exige uma reconstrução que, ao mesmo tempo, mantenha fidelidade de conteúdo e beleza de forma. Felizmente, temos duas boas traduções desse poema em português. Transcrevemos abaixo as duas: a primeira de Nina e Filipe Guerra, tradução portuguesa; e a segunda de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher, tradução brasileira.
O profeta
Por A. S. Púchkin.
Tradução por Nina Guerra e Filipe Guerra, extraído de: Frank, Joseph. Dostoiévski: O manto do profeta. São Paulo Edusp, 2007, p. 24.
Com o espírito morto de sede,
Rojo-me num deserto escuro,
E voa um anjo de seis asas
Na encruzilhada dos meus rumos.
Com dedos leves como o sonho
O serafim toca-me os olhos:
Uns olhos profetas se abriram
Como os da águia assustada.
Eis que me assoma os ouvidos
E os enche de alvoroço:
Escuto o tremer do céu, o alto
Vôo dos anjos, o deslizar
Subáqueo do monstro marinho
E a rosa a crescer no vale.
Sobre minha boca se inclina
E arranca a língua ardilosa,
Carpideira, iníqua e vã,
E com a destra ensangüentada
Põe o dardo da sábia cobra
Na minha boca silenciada.
Com a espada me corta o peito,
O meu coração latejante
Despega, e no vão negro do seio
O anjo mete a brasa viva.
Estou, como morto, no deserto
E a voz de Deus por mim clama:
Ergue-te, ouve e vê, profeta,
Da minha vontade te tomes,
Mares e terras percorre, queime
Meu verbo no coração dos homens.
Tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher, extraído de: Púchkin, Aleksandr. A dama de espadas: prosa e poemas. São Paulo: Editora 34, 2006, p. 240-241.
Num ermo, eu de âmago sedento
já me arrastava e, frente a mim,
surgiu com seis asas ao vento,
na encruzilhada, um serafim;
ele me abriu, com dedos vagos
qual sono, os olhos que, pressagos,
tudo abarcaram com presteza
que nem olhar de águia surpresa;
ele tocou-me cada ouvido
e ambos se encheram de alarido:
ouvi mover-se o firmamento,
anjos cruzando o céu, rasteiras
criaturas sob o mar e o lento
crescer, no vale, das videiras.
Junto a meus lábios, rasgou minha
língua arrogante, que não tinha,
salvo enganar, qualquer intuito,
da boca fria onde, depois,
com mão sangrenta ele me pôs
um aguilhão de ofídio arguto.
Vibrando o gládio com porfia,
tirou-me o coração do peito
e colocou carvão que ardia
dentro do meu tórax desfeito.
Jazendo eu hirto no deserto,
o Senhor disse-me: "Olho aberto,
de pé, profeta e, com teu verbo,
cruzando as terras, os oceanos,
cheio do meu afã soberbo,
inflama os corações humanos!"