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domingo, 2 de maio de 2010

Princípios Batistas - A vida cristã

A VIDA CRISTÃ

1- A salvação pela graça

A graça é a provisão misericordiosa de Deus para a condição do homem perdido. O homem no seu estado natural é egoísta e orgulhoso; ele está na escravidão de Satanás e espiritualmente morto em transgressões e pecados. Devido à sua natureza pecaminosa, o homem não pode salvar-se a si mesmo. Mas Deus tem uma atitude benevolente em relação a todos, apesar da corrupção moral e da rebelião. A salvação não é o resultado dos méritos humanos, antes emana de propósito e iniciativa divinos. Não vem através de mediação sacramental, nem de treinamento moral, mas como resultado da misericórdia e poder divinos. A salvação do pecado é a dádiva de Deus através de Jesus Cristo, condicionada, apenas, pelo arrependimento em relação a Deus, pela fé em Jesus Cristo, e pela entrega incondicional a Ele como Senhor.

A Salvação, que vem através da graça, pela fé, coloca o indivíduo em união vital e transformadora com Cristo, e se caracteriza por uma vida de santidade e boas obras. A mesma graça, por meio da qual a pessoa alcança a salvação, dá certeza e a segurança do perdão contínuo de Deus e de seu auxílio na vida cristã.

A salvação é dádiva de Deus através de Jesus Cristo, condicionada, apenas, pela fé em Cristo e rendição à soberania divina.

2- As exigências do discipulado

O aprendizado cristão inicia-se com a entrega a Cristo, como Senhor. Desenvolve-se à proporção que a pessoa tem comunhão com Cristo e obedece aos seus mandamentos. O discípulo aprende a verdade em Cristo, somente por obedecê-la. Essa obediência exige a entrega das ambições e dos propósitos pessoais e a obediência à vontade do Pai. A obediência levou Cristo à cruz e exige de cada discípulo que tome a própria cruz e siga a Cristo.

O levar a cruz, ou negar-se a si mesmo, expressa-se de muitas maneiras na vida do discípulo. Este procurará, primeiro, o reino de Deus. Sua lealdade suprema será a Cristo. Ele será fiel em cumprir o mandamento cristão. Sua vida pessoal manifestará autodisciplina, pureza, integridade e amor cristão, em todas as relações que tem com os outros. O discipulado é completo.

As exigências do discipulado cristão estão baseadas no reconhecimento da soberania de Cristo, relacionam-se com a vida em um todo e exigem obediência e devoção completas.

3- O sacerdócio do crente

Cada homem pode ir diretamente a Deus em busca de perdão, através do arrependimento e da fé. Ele não necessita para isso de nenhum outro indivíduo, nem mesmo da igreja. Há um só mediador entre Deus e os homens, Jesus. Depois de tornar-se crente, a pessoa tem acesso direto a Deus, através de Jesus Cristo. Ela entra no sacerdócio real que lhe outorga o privilégio de servir a humanidade em nome de Cristo. Deverá partilhar com os homens a fé que acalenta e servi-los em nome e no espírito de Cristo. O sacerdócio do crente, portanto, significa que todos os cristãos são iguais perante Deus e na fraternidade da igreja local.
Cada cristão, tendo acesso direto a Deus através de Jesus Cristo, é seu próprio sacerdote e tem a obrigação de servir de sacerdote de Jesus Cristo em benefício de outras pessoas.


4- O cristão e seu lar


O lar foi constituído por Deus como unidade básica da sociedade. A formação de lares verdadeiramente cristãos deve merecer o interesse particular de todos. Devem ser constituídos da união de dois seres cristãos, dotados de maturidade emocional, espiritual e física e unidos por um amor profundo e puro. O casal deve partilhar ideais e ambições semelhantes e ser dedicado à criação dos filhos na instrução e disciplina divinas. Isso exige o estudo regular da Bíblia e a prática do culto doméstico. Nesses lares o espírito de Cristo está presente em todas as relações da família.


As igrejas têm a obrigação de preparar jovens para o casamento, treinar e auxiliar os pais nas suas responsabilidades, orientar pais e filhos nas provações e crises da vida, assistir àqueles que sofrem em lares desajustados, e ajudar os enlutados e encanecidos a encontrarem sempre um significado na vida.


O lar é básico, no propósito de Deus, para o bem-estar da humanidade, e o desenvolvimento da família deve ser de supremo interesse para todos os cristãos.


5- O cristão como cidadão


O cristão é cidadão de dois mundos – o reino de Deus e o estado político – e deve obedecer à lei de sua pátria terrena, tanto quanto à lei suprema. No caso de ser necessária uma escolha, o cristão deve obedecer a Deus antes que ao homem. Deve mostrar respeito para com aqueles que interpretam a lei e a põem em vigor, e participar ativamente na vida social, econômica e política com o espírito e princípios cristãos. A mordomia cristã da vida inclui tais responsabilidades como o voto, o pagamento de impostos e o apoio à legislação digna. O cristão deve orar pelas autoridades e incentivar outros cristãos a aceitarem a responsabilidade cívica, como um serviço a Deus e à humanidade.


O cristão é cidadão de dois mundos – o reino de Deus e o estado – e deve ser obediente à lei do seu país tanto quanto à lei suprema de Deus.

domingo, 22 de novembro de 2009

Chamado ao discipulado


Karl Barth afirma, em seu livro Chamado ao discipulado, que a essência do discipulado é o "siga-me" de Jesus. A palavra grega que traduz o sentido do discipulado é akolouthein, que significa "ir após ou atrás de alguém". Esse verbo grego ganha especial importância no Novo Testamento quando é utilizado no chamamento feito aos discípulos para acompanhar o Mestre e para compartilhar sua vida e seu ministério.


Barth enfatiza que o chamado do discipulado é o chamado da graça. Tanto é assim que pouco se fala a respeito do caráter ou das qualificações daqueles que foram chamados. Pelo contrário, os chamados geralmente são aqueles que possuem pouca formação ou que são considerados terríveis pecadores. Nesse sentido, é exemplar a vocação de Levi. Chamado quando estava na coletoria, Levi , um publicano, não é de forma alguma alguém que possa ser considerado merecedor do chamado. Pelo contrário, o seu chamado é muito simples, muito singelo ou, numa expressão bastante adequada para o caso, gratuito. Por outro lado, aqueles que sem serem chamados quiseram seguir ao Mestre provavelmente baseados em seus próprios méritos e em seus próprios ideais, como o homem rico em Marcos 10: 17-18 e o homem em Lucas 9: 57-58, não puderam fazê-lo porque não é possível chegar ao discipulado verdadeiro de forma meritória. Ademais, enfatiza Barth, esses homens não estavam preparados para o discipulado porque ele exige uma resposta incondicional. "A resposta de Jesus deixa claro que essa pessoa não pode ser considerada como um discípulo: 'Ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus'" (p. 20). Nesse sentido, não é possível servir ao Reino e querer manter a servidão às riquezas; não é possível seguir a Deus só depois de realizar uma ou outra tarefa: é necessário deixar aos mortos enterrar os seus próprios mortos.


Barth reafirma o que Bonhoeffer afirmou a respeito do discipulado como simples obediência. A resposta afirmativa ao chamado repousa sobretudo na pessoa que chama. Isso porque não é possível responder sim ao chamado, senão porque é Jesus aquele que chama. O discipulo não atende à convocação baseado em recompensas ou em glórias, mas pela autoridade do Mestre. Mais uma vez a vocação de Levi é o maior exemplo disso. Jesus é o centro do discipulado porque é ele quem nos torna aptos a deixar tudo para segui-lo.


O chamado ao discipulado não é um programa de ação individual ou social comandado por Jesus. Em vez disso, o discipulado é uma relação pessoal com Jesus Cristo. Jesus nos chama pelo nome e possui um propósito para cada um. Não é possível reduzir o discipulado a um padrão de conduta, muito embora ele implique uma excelência moral, porque certas ordens de Deus não são gerais e abstratas, mas individuais e concretas. Jesus, no discipulado, guia as vidas individualmente, particularmente.


Por fim, o discipulado implica uma mudança radical: a transição para uma nova criatura. É o que Barth chama de "golpe de estado" divino, por meio dele Jesus passa a ocupar o lugar central na vida dos discípulos, o que implica em uma mudança de atitude em relação ao mundo, às posses, à honra, à força, aos vínculos humanos e à piedade. É verdade que a resposta afirmativa ao chamado implica auto-negação, mas também é verdade que "se não suportarmos o fardo de Jesus, temos que suportar o fardo que nós mesmo escolhemos, e este é cem vezes mais pesado " (p. 38).


Para saber mais sobre esses temas com mais profundidade e entender melhor o sentido do discipulado, vale a penar ler Chamado ao discipulado de Karl Barth. O livro está disponível em nossa biblioteca!


Citações extraídas de: Barth, Karl. Chamado ao discipulado. Trad.: Moisés Carneiro Coelho, São Paulo: Fonte Editorial, 2006.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A mulher adúltera


O texto da semana é um poema de Gióia Júnior (1931-1996) que trata liricamente da conhecida passagem bíblica do Capítulo 8 do evangelho de João. Aí o evangelista mostra o cerne ministério de Jesus como salvador e não como juiz do mundo. Assim como a mulher adúltera, merecíamos morrer como retribuição pelo nosso pecado. No entanto, Jesus, o único digno de ser juiz, demonstrou um caminho mais sublime: o caminho da graça! Nesse sentido, todos nós somos aquela mulher e podemos experimentar esse sublime livramento. Graças a Deus por isso!


A mulher adúltera

Por Gióia Júnior

Manhã, clara manhã de sol rompendo as brumas,

como um barco vermelho a singrar entre espumas...

Campo de Luta. O sol é um gladiador selvagem

e tinge com seu sangue a sombra da paisagem...

...Jesus, depois de orar a noite inteira, envolto

em manto singelo, o cabelo revolto,

a barba em desalinho, as sandálias manchadas

pelo vermelho pó das longas caminhadas,

ensinava no templo apresentando ao povo

a larga nitidez de um horizonte novo...

A estrada do porvir, imensa, inatingida,

a nova Canaã, a Terra Prometida,

que Moisés procurou no meio do deserto,

parecia tão longe e estava ali tão perto!

Ele era a porta aberta, o ensinamento, o exemplo...

Nisto um bando sinistro avança pelo Templo,

escribas, fariseus, num cínico mister:

- Prendamos a Jesus, matemos a mulher!

... Em meio ao burburinho uma jovem bonita,

pálida, maltratada, atirada e maldita

pela lei de Moisés, esperava a sentença,

"o prêmio do pecado", a negra recompensa

de um ilícito amor. Envergonhada e muda,

aguardava o suplício, a pedra pontiaguda

que em seu corpo moreno, em ferida medonha

selaria a desgraça, o martírio, a vergonha...

Depois, a treva imensa e um corpo ensangüentado

expostos para exemplo: "o prêmio do pecado".

Fora presa em seu leito imundo e deletério

no instante em que a paixão se fizera adultério.

No intenso vozerio, uma voz se levanta:

- Jesus de Nazaré, que dizes desta santa?!

Merece a maldição que nossa lei ensina,

ou merece o perdão que é da tua doutrina?...

Jesus indiferente, alheio à multidão,

abaixa-se a escrever com o dedo no chão.

Depois, ergue-se altivo, os olhos vivos, a alma

profundamente clara, imensamente calma,

e destrói a pergunta em um único brado:

- Lance a primeira pedra o que não tem pecado!

Abaixa-se de novo o Pai dos Evangelhos

e o povo se dispersa, a partir dos mais velhos.

Só Jesus e a mulher. O perdão e o pecado,

a negra escuridão e o dia iluminado...

A humilde pecadora aguarda comovida

o fim que lhe daria o que lhe dera a vida...

- Ninguém te condenou? - pergunta o Nazareno.

- Ninguém, Senhor, ninguém. - Pois nem eu te condeno.

E, erguendo meigamente os olhos paternais,

falou: - Podes partir. Mulher, não peques mais!!!


Para mais poemas de Gióia Júnior, acesse: http://www.geocities.com/feguizze/index.htm