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quarta-feira, 24 de março de 2010

A existência de Deus, provada pelas obras da criação


Bocage (1765-1805) foi o maior representante português do movimento arcadista e um dos maiores poetas de língua portuguesa. No poema transcrito, Bocage argumenta que não só a fé aponta para a existência de Deus, mas também a razão, por meio da experiência da grandeza e da ordem presentes na natureza. O poeta traduz liricamente as idéias da Teologia Natural, que eram duramente disputadas no século XVIII e que até hoje permanecem objeto de controvérsia. De qualquer forma, a idéia de que a natureza proclama a glória de Deus está presente em diversas passagens bíblicas, ainda que não esteja implicado necessariamente o conceito de prova como demonstração racional.

A existência de Deus, provada pelas obras da criação

Por Manuel Maria Barbosa du Bocage


Os milhões de áureos lustres coruscantes
Que estão da azul abóbada pendendo;

O Sol e a que ilumina o trono horrendo
Dessa que anima os ávidos amantes;

As vastíssimas ondas arrogantes,
Serras de espuma contra os céus erguendo;

A leda fonte humilde o chão lambendo,
Lourejando as searas flutuantes;


O vil mosquito, a próvida formiga,
A rama chocalheira, o tronco mudo:

Tudo que há Deus a confessar me obriga.


E para crer num braço, autor de tudo,

Que recompensa os bons, que os maus castiga,

Não só da fé, mas da razão me ajudo.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Vilancete


Gil Vicente (1465?-1536?) foi o primeiro grande dramaturgo de língua portuguesa. Sua obra versa principalmente sobre temas morais e religiosos.

Além de escrever para o teatro, Vicente também compôs poemas. O poema de sua autoria transcrito abaixo é um vilancete, forma poética comum na Península Ibérica na época Renascença, que se caracteriza por ser composto de um mote seguido de uma ou mais estrofes , conhecidas como voltas ou glosas, com 5 ou 7 sílabas poéticas. O poeta português aborda um tema muito caro ao livro de Salmos, que é a manifestação gloriosa da natureza em louvor do Criador por meio de sua maravilhosa ordem e beleza.

"Aleluia! Louvai ao SENHOR do alto dos céus, louvai-o nas alturas. Louvai-o, todos os seus anjos; louvai-o, todas as suas legiões celestes. Louvai-o, sol e lua; louvai-o, todas as estrelas luzentes. Louvai-o, céus dos céus e as águas que estão acima do firmamento. Louvem o nome do SENHOR, pois mandou ele, e foram criados. E os estabeleceu para todo o sempre; fixou-lhes uma ordem que não passará. Louvai ao SENHOR da terra, monstros marinhos e abismos todos; fogo e saraiva, neve e vapor e ventos procelosos que lhe executam a palavra; montes e todos os outeiros, árvores frutíferas e todos os cedros; feras e gados, répteis e voláteis; reis da terra e todos os povos, príncipes e todos os juízes da terra; rapazes e donzelas, velhos e crianças. Louvem o nome do SENHOR, porque só o seu nome é excelso; a sua majestade é acima da terra e do céu. Ele exalta o poder do seu povo, o louvor de todos os seus santos, dos filhos de Israel, povo que lhe é chegado. Aleluia!" Salmo 148.

Vilancete

Por Gil Vicente


Adorai, montanhas,
o Deus das alturas,
também das verduras.
Adorai, desertos
e serras floridas,
o Deus dos secretos,
o Senhor das vidas.
Ribeiras crescidas
louvai nas alturas
Deus das criaturas.
Louvai arvoredos
de fruto prezado,
digam os penedos:
Deus seja louvado!
E louve meu gado,
nestas verduras,
o Deus das alturas.