sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A mulher adúltera


O texto da semana é um poema de Gióia Júnior (1931-1996) que trata liricamente da conhecida passagem bíblica do Capítulo 8 do evangelho de João. Aí o evangelista mostra o cerne ministério de Jesus como salvador e não como juiz do mundo. Assim como a mulher adúltera, merecíamos morrer como retribuição pelo nosso pecado. No entanto, Jesus, o único digno de ser juiz, demonstrou um caminho mais sublime: o caminho da graça! Nesse sentido, todos nós somos aquela mulher e podemos experimentar esse sublime livramento. Graças a Deus por isso!


A mulher adúltera

Por Gióia Júnior

Manhã, clara manhã de sol rompendo as brumas,

como um barco vermelho a singrar entre espumas...

Campo de Luta. O sol é um gladiador selvagem

e tinge com seu sangue a sombra da paisagem...

...Jesus, depois de orar a noite inteira, envolto

em manto singelo, o cabelo revolto,

a barba em desalinho, as sandálias manchadas

pelo vermelho pó das longas caminhadas,

ensinava no templo apresentando ao povo

a larga nitidez de um horizonte novo...

A estrada do porvir, imensa, inatingida,

a nova Canaã, a Terra Prometida,

que Moisés procurou no meio do deserto,

parecia tão longe e estava ali tão perto!

Ele era a porta aberta, o ensinamento, o exemplo...

Nisto um bando sinistro avança pelo Templo,

escribas, fariseus, num cínico mister:

- Prendamos a Jesus, matemos a mulher!

... Em meio ao burburinho uma jovem bonita,

pálida, maltratada, atirada e maldita

pela lei de Moisés, esperava a sentença,

"o prêmio do pecado", a negra recompensa

de um ilícito amor. Envergonhada e muda,

aguardava o suplício, a pedra pontiaguda

que em seu corpo moreno, em ferida medonha

selaria a desgraça, o martírio, a vergonha...

Depois, a treva imensa e um corpo ensangüentado

expostos para exemplo: "o prêmio do pecado".

Fora presa em seu leito imundo e deletério

no instante em que a paixão se fizera adultério.

No intenso vozerio, uma voz se levanta:

- Jesus de Nazaré, que dizes desta santa?!

Merece a maldição que nossa lei ensina,

ou merece o perdão que é da tua doutrina?...

Jesus indiferente, alheio à multidão,

abaixa-se a escrever com o dedo no chão.

Depois, ergue-se altivo, os olhos vivos, a alma

profundamente clara, imensamente calma,

e destrói a pergunta em um único brado:

- Lance a primeira pedra o que não tem pecado!

Abaixa-se de novo o Pai dos Evangelhos

e o povo se dispersa, a partir dos mais velhos.

Só Jesus e a mulher. O perdão e o pecado,

a negra escuridão e o dia iluminado...

A humilde pecadora aguarda comovida

o fim que lhe daria o que lhe dera a vida...

- Ninguém te condenou? - pergunta o Nazareno.

- Ninguém, Senhor, ninguém. - Pois nem eu te condeno.

E, erguendo meigamente os olhos paternais,

falou: - Podes partir. Mulher, não peques mais!!!


Para mais poemas de Gióia Júnior, acesse: http://www.geocities.com/feguizze/index.htm

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