Mostrando postagens com marcador reflexão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador reflexão. Mostrar todas as postagens

domingo, 7 de março de 2010

Teantropologia

"A teologia evangélica não ignora que o Deus do evangelho se acha voltado para a existência humana, que ele realmente desperta e chama o ser humano à fé e que com isso reivindica e ativa a totalidade do potencial intelectual humano (e não só o seu potencial intelectual). Mas esse fato apenas suscita o interesse da teologia na medida em que ela se interessa, com prioridade absoluta, por Deus mesmo. Ela raciocina e argumenta sob a premissa dominante da revelação da existência e soberania de Deus. Caso quisesse proceder de forma contrária, tentando expor Deus ao critério do ser humano, em vez de expor o ser humano ao critério de Deus, ela seria vítima do cativeiro babilônico de antropologias, antologias e noologias, i. é, de qualquer interpretação antecipada da existência, da fé e do potencial intelectual do ser humano. A teologia evangélica não é forçada nem autorizada a enveredar por tal caminho. Ela sabe esperar, correndo o risco da fé, para verificar como a existência, a fé e a capacidade intelectual do ser humano, como seu ser e sua autocompreensão, em confronto com o Deus do evangelho, superior à existência humana, venham a revelar-se."

Barth, Karl. Introdução à Teologia Evangélica. Tradução de Lindolfo Weingärtner. 5ª edição revisada, São Leopoldo: Sinodal, 1996, p. 12

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Oração e Conhecimento

"Por enquanto, gostaria de ressaltar brevemente que armas devemos usar no combate aos principais vícios. Estas armas são a oração e o conhecimento. Paulo expressa claramente o desejo de que os homens estejam continuamente armados e recebemos a ordem de orar sem cessar. A oração autêntica dirigida ao céu é capaz de subjugar a ira, pois ela é, assim como sempre foi, a fortaleza inacessível ao inimigo. O conhecimento, ou o aprendizado, fortifica a mente com saudáveis preceitos e mantém a virtude frente a nós. Estes dois elementos são inseparáveis, o primeiro rogando, e o último sugerindo o que devemos orar. São Tiago nos diz que devemos orar sempre por fé e esperança, buscando os elementos da salvação em nome de Jesus. Podemos recordar que Cristo perguntou aos filhos de Zebedeu se eles realmente sabiam por que motivo estavam orando. Devemos sempre enfatizar a necessidade dupla da prece e do conhecimento. Na fuga do pecado, imite Aarão como modelo daquele que ora e Moisés como um exemplo do entendimento da lei. Ambos impedem que tua compreensão diminua e que tua oração se torne estéril." (Trecho de O manual do Cristão Militante, com adaptações)

Erasmus, Desiderius. A filosofia de Erasmo de Roterdã. Seleção, introdução e comentário de John Patrick Dolan. Tradução de Fernanda Monteiro dos Santos. São Paulo: Madras, 2004, p. 35.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Amor de Deus e Amor próprio

"A procura do bem é a procura de uma vida que não conhece a morte, a realidade plena da sua própria vida que está ao abrigo de toda a perda. Esta vida sem morte é Deus, Deus amado e procurado enquanto eternidade. Esta eternidade é o futuro absoluto: se o homem deseja a realidade plena da sua própria vida, procura-se e deseja-se como porvir e não ama o eu na primeira pessoa, que encontra como dado na realidade terrestre. O ódio a si e a renúncia ao si levam ao eu do presente, dado, mortal. O critério do amar justo ou mau não é a renúncia a si em absoluto mas uma renúncia pelo amor do eterno que nos espera: 'Abstém-te de amar nesta vida, para não perderes a vida eterna (...) Se ocasionalmente amaste mal, então odiaste; se odiaste com conhecimento de causa, então amaste'. Amor de Deus e amor de si caminham lado a lado e não se contradizem. No amor de Deus, o homem ama-se a si próprio, ao homem que há-de-vir , na pertença desejada a Deus, logo, a si mesmo enquanto aquilo que será eterno. Esta renúncia de si é pseudocristã não porque não procede da consciência do seu próprio ser de criatura nem da insuficiência de tudo que é humano que Deus chamou à obediência da fé, e pelo que, desde logo, toda a autonomia é orgulhosa (São Paulo), mas porque ela é a última consequência, ultrapassando-se a si mesma, do amor, do desejo, da procura do seu próprio bem. E é apenas porque o homem não constitui ele próprio um bem que lhe permite ser feliz que não é auto-suficiente, que deve procurar-se e que nessa procura o bem leva-o a esquecer-se de si próprio. Ele pode perder-se se se esquecer nos bens deste mundo. O desejo é, pois, a estrutura fundamental do ser que não se possui a si mesmo e que corre o perigo de se perder. No abandono de Deus, o homem é empurrado para fora de si (extra se) e perde-se aí."

(Arendt, Hannah. O conceito de amor em Santo Agostinho. Trad. Alberto Pereira Dinis. Lisboa: Instituto Piaget, s.d., p. 33-34)